No último domingo, dia 13/01, o jornal A Gazeta publicou a seguinte manchete na editoria de Mundo:
Só que logo no lead da matéria é possível perceber que a informação correta não seria bem essa:
A ex-refém colombiana Clara Rojas disse ser contra a proposta do presidente venezuelano Hugo Chávez de se retirar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) da lista internacional de organizações terroristas.
e o texto segue:
O governo colombiano classificou o pedido de Chávez como “desproporcional”.Na sua primeira entrevista coletiva à imprensa depois da libertação, concedida em Caracas, na Venezuela, Rojas disse que a organização parece “criminosa” e que manter pessoas seqüestradas constitui um “crime contra a humanidade”.
A manchete chama bastante a atenção dos eleitores. Afinal, depois de anos no cativeiro, o jornal A Gazeta traz a informação de que a ex-refém se diz contra o presidente que foi o principal articulador da sua liberdade! Não era nada disso. Clara Rojas era contra a uma proposta do presidente e não contra ele, o que faz muita diferença!
O leitor tem direito a uma manchete precisa. Não é porque o lead desfaz o mal-entendido que o jornal fica isento da responsabilidade de publicar uma manchete ambígua. Até porque as manchetes são muito mais lidas do que o corpo das matérias. Diariamente existem milhares de leitores apenas das manchetes dos jornais. Para esses, a ex-refém das Farc quer derrubar o presidente venezuelano… Ainda bem que Clara Rojas não lê A Gazeta.





O jornal A Gazeta tem uma posição contrária ao presidente da Venezuela Hugo Chavez. Na época da NÃO RENOVAÇÃO da concessão pública de TV da RCTV o jornal, assim como a maior parte da grande mídia nacional, optou por utilizar a expressão “CASSAÇÃO” com o objetivo de construir na sociedade uma visão de autoritarismo. Usar o termo “cassação” não foi um erro jornalístico, pelo contrário, foi uma opção ideológica. Qualquer jornalista que chegue ao posto de Editor-chefe de um jornal (será o caso de A Gazeta a exceção que confirma a regra?) sabe que o que é uma concessão pública de rádio e tv…então o erro poderia acontecer na primeira vez e logo os jornalistas/editores deveriam ser orientados pelo editor-chefe que na Venezuela o que aconteceu não foi aquilo que o jornal publicou…mas o caso de A Gazeta é outro.
Portanto, o fato de dar esta machete “Clara Rojas é contra Chavez” precisa ser compreendida dentro de um processo contínuo do jornal em construir a imagem de um ditador e não de um presidente legitimamente eleito pelo povo daquele país.
Enquanto isso o santo-modelo é o Bush e como diria Tom Zé…
Se Você Já Sabe Quem
Vendeu Aquela Bomba Pro Iraque,
Desembuche.
Eu Desconfio Que Foi O Bush.
Foi O Bush,
Foi O Bush.
Foi O Bush.
Prefiro tentar entender o fenômeno por um outro viés, conforme está exposto na proposta deste blog. Tenho tentado trabalhar os posts de maneira a apontar as frequentes transgresssões da ‘gramática’ jornalística que são cometidas. Com gramática, quero dizer o conjunto de regras e modos de procedimento aprendidos nas salas de aula dos cursos de jornalismo e definidos nos manuais de redação. Esses códigos são criados pelos próprios jornalistas, apesar de muitas vezes não serem respeitados por eles (nós). Por que isso acontece? Para mim a resposta depende de cada caso, não dá para generalizar. Só que é possível definir algumas regularidades. Até o conjunto de valores que são inerentes a profissão podem ser questionados. Há erros que são sistemáticos e repetitivos. Outros são sintomáticos de alguns imperativos da atividade. No modelo comercial, a audiência é um imperativo muito presente em todos os veículos, ainda mais no momento atual de crise da grande mídia e do jornalismo. E manchete atrativa ajuda a vender…