A pauta é a fase inicial de uma reportagem. Nessa etapa de produção da notícia devem ser levantadas as primeiras informações que vão servir de base para a matéria, numa espécie de linha-guia para o repórter. Em alguns casos, a pauta pode servir até como esboço do texto final. Quando o assunto em questão é uma denúncia, o trabalho da pauta é ainda mais importante e delicado. Nesse caso, antes de qualquer coisa, deve-se verificar a pertinência da sugestão. É preciso confirmar a hipótese, verificar se a crítica é procedente e oportuna. Caso contrário, a imprensa corre sério risco de ser usada por pessoas de má fé, ou de cometer injustiças por embarcar em eventuais preconceitos, por comprar falsas premissas.
Só que pelo que se pode ver na mídia capixaba, nem todos os veículos preocupam-se com isso. A cautela muitas vezes dá lugar ao chute. Na última sexta-feira, (28/03), o ESTV 1ª edição exibiu a seguinte reportagem:
A matéria parte de um pressuposto claro: a prefeitura de Vitória não planejou direito a obra de reurbanização da orla de Camburi e, por isso, desperdiçou dinheiro público e prolongou os transtornos causados aos motoristas. Primeiramente foi colocado asfalto na avenida Dante Michelini, mas logo depois, o serviço recém realizado, foi desfeito. O asfalto foi cortado para dar lugar a um pavimento de concreto. O povo fala foi realizado justamente para legitimar essa premissa. Os motoristas entrevistados não são engenheiros, nem necessariamente possuem alguma formação na área da contrução civil – eram apenas e somente motoristas que passavam na avenida na ida para o trabalho, e foram ouvidos nessa condição. Mesmo assim, eles foram entrevistados para afirmarem que faltou planejamento e organização da prefeitura. Um deles foi enfático: disse que o procedimento era uma vergonha, um descaso com o dinheiro público. Além disso, quem passava de carro pelo local também deu seu depoimento para reclamar dos reflexos no trânsito. Um motorista chegou a determinar que a obra deveria ser feita por inteiro, de uma vez, para evitar as constantes intervenções. O mau uso do povo fala – que frequentemente é usado para confirmar as premissas e preconceitos do jornalista – já foi motivo de post neste blog. Não se pode esquecer que os veículos são, na melhor das hipóteses, co-responsáveis por tudo aquilo que exibem ou publicam.
A prefeitura foi ouvida somente em uma nota pé, lida pela apresentadora do telejornal. Nela, o executivo municipal afirma que o procedimento estava programado para ser realizado exatamente dessa maneira. Primeiro era necessário fazer o novo capeamento asfáltico para em seguida cortar o asfalto na área onde vai ficar a baia de ônibus e aplicar o concreto. De acordo com a nota da prefeitura, essa era a única forma de evitar que a pista ficasse com desníveis entre os dois tipo de pavimento.
No dia seguinte, (sábado, 29/03), o jornal A Gazeta publicou a mesma reportagem, e com o mesmo viés:
Prefeitura quebra asfalto novo na orla de Camburi (link para quem tem acesso)
Uma obra para construção de uma baia de ônibus na Avenida Dante Michelini, em Vitória, deixou o trânsito complicado ontem. Mas esse não foi o único fato que chamou a atenção: o asfalto novo que havia sido aplicado no trecho, em frente à agência da Caixa Econômica Federal, foi aberto, desmanchando parte do serviço realizado antes.
Operários usando pás e tratores a serviço da Prefeitura de Vitória estão trabalhando no trecho. Eles abriram um retângulo na área em frente ao recuo que será usado pelos ônibus. O trânsito está interditado parcialmente naquele trecho.
Recapeamento
Na Praia do Canto, também em Vitória, o trânsito ficou lento em algumas ruas por conta de recapeamento asfáltico que a prefeitura realizou durante a manhã. Na Rua Chapot Presvot, o problema foi parecido com a construção da baia na Dante Michelini. Um asfalto recém-aplicado já foi aberto pelo menos duas vezes em alguns trechos. Ontem, havia dois buracos quadrados na pista sem o asfalto.A PMV informou que os serviços em Camburi estavam programados e que essa foi a forma de evitar desníveis na pista durante a construção da área de entrada dos ônibus no ponto.
Quanto ao problema de abertura de buracos na Rua Chapot Presvot, a explicação é que várias obras foram realizadas por órgãos diferentes. Além da drenagem feita pela prefeitura, obras de instalação de rede de água e gás também foram realizadas.
Ora, a pergunta que se coloca é a seguinte: se a prefeitura programou o serviço dessa maneira; se esse era o único procedimento capaz de assegurar a qualidade do trabalho; se tecnicamente essa é a forma mais correta e adequada para se realizar esse tipo de serviço, as reportagens da TV e do jornal impresso tem alguma pertinência? Elas são oportunas? Afinal, o assunto merecia mesmo ter virado uma reportagem com essa perspectiva? Outro ponto importante: os veículos se eximem de qualquer responsabilidade pela publicação de informações equivocadas; por divulgar largamente um falso pressuposto, só porque ouvem o outro lado? Esse procedimento não é muito injusto com uma das partes? É isso que é ser crítico?
É claro que a prefeitura tem interesse no assunto. É óbvio que a assessoria pode estar usando de uma desculpa esfarrapada para encobrir a suposta falta de planejamento e o alegado desperdício de dinheiro público. Mas isso também não passa de uma hipótese. Para saber se a explicação procede; para confirmar se o procedimento foi tecnicamente adequado, ou não, bastaria um gesto muito simples: consultar o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA), ou qulaquer engenheiro independente, que não tenha nenhuma ligação com a prefeitura.
No jornalismo muitas vezes faltam investigação, apuração, verificação e confirmação. Por outro lado, sobram preconceitos e notícias baseadas em premissas falsas, ou, pelo menos, bastante duvidosas.




Infelizmente, é mais fácil escrever/falar o que todos querem ouvir (e o que dá mais IBOPE). É fato que TODOS estão insatisfeitos com tanto transtorno causados pelas obras em Vitória, e ninguém (ou quase ninguém), vai parar para criticar o outro lado da história. (longe de mim querer defender ou apoiar o que foi dito pela PMV, afinal, também não sou engenheiro…)
Acredito que pela pressa em colocar uma reportagem ao ar (antes do concorrente), possa levar alguns reporteres a passar por cima de alguns preceitos básicos aqui citados em sua crítica (que por sinal, EXCELENTE).
Em fim… falta realmente bom senso para ter mais “investigação, apuração, verificação e confirmação” dos fatos.
Um abraço.
Sei que seu blog é voltado pra avaliação da produção técnica do jornalismo, mas não consigo deixar de comentar que essa oposição ao Coser – cada vez mais recheada de bílis – só me fazem imaginar que o trabalho da equipe dele à frente da prefeitura está muito melhor que o do tucanato.
Grande Ademar,
Olha, a intenção deste blog não é restringir a análise à produção técnica do jornalismo. É com a produção de sentidos que este espaço se ocupa.
Em seu trabalho, o jornalista está submetido a uma série de operações e pressões sociais. Ele responde a uma rotina de produção, a uma gramática comum, a valores compartilhados, e a constrangimentos organizacionais de diversas naturezas, como, por exemplo, a busca pela audiência.
Esse trabalho é bem sistematizado, tem uma operação própria e cristalizada, faz parte de um processo industrial. O problema é que os jornalistas não são nem um pouco autocríticos com relação as essas operações, apesar de reconhecerem que o resultado do trabalho deles gera sentido.
Por isso mesmo, é preciso que se reconheça a importância do jornalismo e a urgente necessidade de olhar de maneira mais criteriosa para as práticas e os procedimentos da atividade, a partir dos produtos jornalísticos.
É claro que existem coberturas que são essencialmente denunciáveis. É preciso reconhecer que, muitas vezes, os veículos assumem campanhas na tentativa de contruir ou de destruir a imagem de uma administração de esquerda, por exemplo.
Mas denunciar distorções intencionais nos textos noticiosos não resolve o problema, porque não o explica na sua totalidade. Dizer que trata-se de uma opção ideológica do dono do jornal ajuda menos ainda, já que sabemos que os espaços para trangressões dessa cartilha são enormes, muita coisa escapa ao controle dos chefes.
Na minha avaliação, dizer que existem distorções maquiavélicas na imprensa tem como premissa a possibilidade de que a mesma imprensa consiga refletir fielmente a realidade, o que epistemologicamente é bastante questionável.
Por essas razões, prefiro dar minha contribuição, no sentido de mostrar que muitas operações, realizadas diariamente pelos jornalistas, precisam ser revistas, mesmo quando ele cumpre a risca os manuais de redação e as normas da profissão. Além disso, esse blog tem mostrado que frequentemente essas mesmas normas são completamente ignioradas pelos profissionais.
Tentei, mas não sei se fui mais claro…
Grande abraço.
[...] outro exemplo em que o tratamento da TV foi muito diferente deste aí acima está neste outro post. Me parece que há uma regularidade de [...]