Na última terça-feira, dia 29/04, esta foi a capa do jornal A Gazeta. O presidente Lula aparece duas vezes:
Diariamente a imprensa realiza esse tipo de operação: no processo de edição, o jornalismo descontextualiza pequenos trechos de determinadas falas, de acordo com a sua conveniência, transformando o resultado em notícia. Lá está em letras garrafais, a frase atribuída ao presidente: “Ninguém consegue fazer tudo em 8 ou 10 anos.”
Até aqui tudo bem. É preciso concordar que não dá para transcrever na íntegra tudo o que as fontes disseram. Caso contrário, o jornal seria feito somente de entrevistas, já que não caberia mais nada. Na capa de um jornal o espaço é ainda mais limitado. Por isso é fácil reconhecer a necessidade de se fazer escolhas, selecionar apenas alguns trechos. Além disso, é claro que mesmo se o jornalismo optasse por transcrever as falas inteiras, faltaria o contexto vivo de produção da enunciação, com toda a sua riqueza. Portanto a crítica aqui não é com relação ao tamanho da seleção que é feita.
O problema existe – e é grave - quando a tarefa de descontextualização/recontextualização sugere um novo sentido, que não estava presente na enunciação inicial. A questão não reside na operação de resignificar, já que ela é própria da atividade. Há sempre a possibilidade de se unir elementos da maneira que o jornalismo entende ser pertinente. O problema é que, muitas vezes, essa pertinência obedece a uma lógica completamente externa e alheia ao próprio objeto ou fato em questão. Pierre Lévy faz uma reflexão muito interessante nesse sentido.
A descontextualização que acabo de citar instaura, paradoxalmente, um outro contexto, holístico, quase tribal, mas em maior escala do que nas sociedades orais. A televisão, interagindo com outras mídias, faz surgir um plano de existência emocional que reúne os membros da sociedade em uma espécie de macro-contexto flutuante, sem memória, em rápida evolução. (LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999, p.116)
Na capa acima, ao lado da frase de Lula, o jornal manchetou o resultado de uma pesquisa que indica o seguinte: a maior parte da população (51,1%) votaria em Lula em 2010; e 50,4% diz aprovar uma alteração da Constituição para que o terceiro mandato seja possível. A identidade entre os dois elementos está dada: Lula e a população querem o terceiro mandato. Não sei se, de fato, é isso mesmo. O que não dá para negar é que a operação de recontextualização precisaria ser encarada com muito mais rigor pelos jornalistas. Essa exigência se dá pelo óbvio: é muito fácil verificar que a união de elementos, a organização do discurso, a recontextualização é capaz de produzir um fechamento semântico, ou seja, constrói sentido. No caso acima, a margem para outra interpretação é praticamente inexistente. O resultado é que o leitor de A Gazeta não duvida que Lula e o povo querem sim o terceiro mandato.
De acordo com Pierre Lévy – ainda em Cibercultura - o trabalho de decontextualizar as mensagens e torná-las acessíveis a todos, e a todo momento, não foi inaugurado com a mídia de massa, mas é uma característica fundamental da própria escrita. Mas tanto em um como em outro, essa tarefa ganha a conotação que ele chama de universal e totalizante.
Universal porque o texto escrito precisa respeitar códigos específicos que possibilitem que a mensagem seja de alguma forma atualizada em qualquer tempo e lugar, se tornando universal, disponível para todos. E esse universal é totalizante porque sempre procura a unidade de sentido, a redução a um denominador comum, o fechamento semântico. Esse tipo de mensagem não deve ser aberta, não pode provocar ambiguidades. Se o contexto vivo da enunciação não é recuperável, é preciso deixar disponível, na própria mensagem, as chaves de leitura. A idéia é elaborar um texto - no sentido lato – que permita aos receptores o mínimo de interpretação.
É justamente aí que mora o perigo!





n°1, letra b, se a memória não me falha.
tá, errei. é a letra a mesmo. metade dela.
Na verdade, serve um pouco para as duas…
Até logo e bom trabalho.
percebi!
mas sabe, é muito legal ver essas coisas. Por que, tipo, conhecimento é troca e tudo o mais e é muito ruim quando você sente que a pessoa que tá do outro lado pra ensinar alguma coisa simplesmente não se importa.
L=
Rafael,
o que me chama atenção nesta capa é a manchete “Brasileiro trabalha 30 anos só para pagar impostos”. Você não acha que, de um modo geral, as matérias sobre esse assunto não destacam para onde vai uma parte significativa dos recursos? No ano passado, 1 em cada 3 reais foram para pagar a dívida interna e externa.
Abraço,
Flavio