No último domingo, o jornal A Gazeta publicou na editoria de opinião – como faz toda semana – um texto assinado pelo diretor de redação. O artigo faz algumas reflexões sobre a cobertura do caso Isabella Nardoni, mas infelizmente não foi disponibilizado na edição de A Gazeta publicada na Internet. Abaixo a transcrição de dois trechos:
[...] Não, jornalista não é juiz. No entanto, não podemos fugir da tarefa de fornecer informações às pessoas, para que elas formem suas opiniões. “Mas o noticiário praticamente condena o casal” é a crítica mais comum. Errado. O que compromete o casal são os laudos técnicos e a série de evidências levantadas pela polícia, divulgados com mutos detalhes por vários meios de comunicação. [...]
[...] Podem ter ocorrido exageros na cobertura do Caso Isabella. A transmissão ao vivo da reconstituição do crime, por exemplo, é questionável. Mas poucos foram os fatos revelados pela imprensa até o momento foram desmentidos. As provas são insuficientes? Mas esse é um problema da esfera jurídica. [...]
É claro que a tarefa do jornalismo é informar. Isso ninguém discute. O ponto que merece ser objeto de observação é como, e com que consequências a imprensa realiza essa operação. Em episódios como o assassinato de Isabella – que revelam dramas extremamente humanos – o desrespeito a certos limites são muito frequentes. E para quem acompanha, com atenção, o trabalho da imprensa, são até já esperados. O exemplo no texto acima é bem claro. A missão do jornalista é informar, mas a transmissão ao vivo da reconstituição do crime serve mais a espetacularização do episódio do que ao direito coletivo a informação. Há uma enorme diferença entre o interesse público e o interesse DO público.
Sabe-se que o notíciário sobre o assassinato da menina aumentou bastante a audiência média dos telejornais, por exemplo. E como no nosso modelo comercial, quanto mais audiência melhor, o jornalismo acompanha o caso bem de perto e com bastante assiduidade, independentemente de haver, ou não, alguma novidades a ser divulgada. Daí surgem as entradas ao vivo para dizer que o casal se encontra na casa dos avós paternos da criança assassinada, que hoje não saiu de casa, que quando sai usa um carro com vidros pretos, que estão sendo hostilizados na rua… É o imperativo do mercado que é parte constitutiva de qualquer redação.
E não é só isso. Já levantei aqui uma outra questão de extrema relevância: em matérias policiais, quase sempre a imprensa é refém da fonte oficial. Ela fica a mercê da polícia. E o pior é que muitos jornalistas gostam dessa situação. Serve, entre outras coisas, para facilitar o trabalho e também para fugir das responsabilidades daquilo que se publica. Qualquer problema a culpa é da polícia, foi ela quem falou! Ou, nas palavras do texto acima: As provas são insuficientes? Mas esse é um problema da esfera jurídica.




Bem colocado Rafael, essa postura da imprensa de se colocar refém das fontes oficiais é bem cômoda. Isso porque muitas vezes a polícia erra, e a imprensa, por tabela, erra junto. Mas claro “qualquer problema a culpa é da polícia, foi ela quem falou”.
Essa situação me lembra muito o clássico caso da Escola Base, em que o Delegado de polícia que conduzia o caso “confirmou” à impressa a existência do crime. Munidos por essa declaração, os jornais execraram os suspeitos. Depois, descobriu-se que os acusados eram inocentes. Mas aí a M** já estava feita, e quem arcou com as conseqüências foram os acusados que tiveram suas vidas destruídas. Mas claro, para a imprensa, a culpa foi do delegado, porque foi ele quem falou.
Agora sim, depois de detectar os posts sobre a cobertura do caso Isabella, gostaria de comentar (deixo no último, apesar de ter lido todos os outros) sobre alguns trechos que me chamaram a atenção:
“É o imperativo do mercado que é parte constitutiva de qualquer redação.”
“O culto ao espetáculo e a submissão aos registros da audiência têm ocupado espaço em alguns meios de comunicação.”
“A incapacidade dos jornalistas de avaliar minimamente a própria atividade, seu próprio fazer, beira ao absurdo.”
Para alguns, os períodos acima soariam como opinião. Para mim, são fatos. E, diante desses fatos, vem-me um questionamento: como fugir disso? Penso que contar com o bom senso e o empenho de jornalistas, de um modo geral, é, no mínimo, ingenuidade. Claro, existem ótimos profissionais, mas são raros. Muito frequentemente, tenho a sensação de que o jornalismo é uma espécie de terra de ninguém, sem limites, e que os meios de comunicação, a imprensa, não dispõe de nada que possa EFETIVAMENTE apontar-lhe seus erros, cobrar melhorias etc. Infelizmente, parece que a imprensa crê que está acima da verdade, que não comete equívocos e, pior, que não precisa de ninguém para avaliar seu trabalho. Acredito que uma das possibilidades de alterar esse quadro seja a emergência da chamada web 2.0. Mas será que ela por si só será capaz?
Marcos,
Sem dúvida a Web é uma excelente alternativa! Um dos textos para a próxima aula traz um exemplo de como o acompanhamento e a avaliação da cobertura dos grandes veículos sobre as eleições 2006 realizada pela blogosfera foi determinante para mudar o processo.
Mas também há outros caminhos: auto-regulação (ombudsmam, conselhos de redacção…), regulação externa (por meios de entidades independentes). Veja: a telefonia, eletricidade e todos os outros serviços públicos- mesmo sendo oferecidos por empresas privadas – são regulados por agências independentes de governos, porque a Comunicação Social não poderia nem deveria ser responsabilizada por seus produtos? Tem que responder pela qualidade do serviço que presta!
Controle social (observatórios da imprensa, entidades da área, leitores, ouvintes, telespectadores e usuários em geral podem e devem colocar a boca no trombone)
e por último um bom e velho escrutínio pelos próprios pares. Jornalista que faz jornalismo tem que discutir a actividade e seus produtos com os colegas. Não pode se sentir mal por ser criticado. Se um advogado faz besteira, logo tem que responder na OAB. Um conselho de comunicação para avaliar o que os jornalistas andam fazendo cairia muitíssimo bem.
Toda essas alternativas não tem ABSOLUTAMENTE nada a ver com algum cerceamento da liberdade de imprensa.
Era isso,
Abraço