A dependência que muitas vezes se instaura na relação dos jornalistas com as fontes de informação já foi o tema de vários posts neste blog. O ponto chave nessa questão reside nas consequências dessa dependência mútua. Em reportagens policiais, a falta de autonomia é ainda mais evidente. Isso porque a polícia precisa da imprensa, e a imprensa precisa da polícia. Como forma de mostrar rapidez e eficiência, os policiais se apressam em apresentar à sociedade os resultados de investigações, principalmente nos crimes de maior repercussão. Para isso, a polícia precisa dos jornalistas, ela tem interesse no acompanhamento do caso. Por outro lado, a imprensa precisa da polícia, porque os crimes de grande repercussão atraem a atenção do público. Logo, há muito interesse na divulgação das informações que os policiais dispõem.
O resultado é que a imprensa frequentemente compra a versão da polícia. Assim, se livra do ônus de esperar ou de procurar, por si mesma, a confirmação das informações e, por tabela, também pretende ficar livre da responsabilidade. Qualquer problema, foi a polícia que falou. No exemplo mais recente a polícia e a imprensa capixaba divulgaram uma informação que não se confirmou. As consequências foram graves, principalmente para duas pessoas que foram acusadas injustamente e detidas. A polícia se retratou, mas o jornalismo não deu o mesmo espaço e destaque à correção do equívoco.
Na última sexta-feira, dia 02/05, o telejornal ESTV 2ª edição exibiu a seguinte reportagem (clique na imagem):
Trata-se de uma matéria sobre uma grande operação policial que foi realizada com o objetivo de encontrar os responsáveis por um grande assalto realizado em um prédio na Praia do Canto, em Vitória. O crime havia sido realizado na noite do dia 30 de abril quando pelo menos dez bandidos invadiram um prédio, cortaram os fios telefônicos e roubaram vários apartamentos.
A reportagem informa que treze pessoas haviam sido detidas, incluindo dois porteiros que trabalham no prédio. De acordo com a reportagem, a polícia acreditava na participação dos funcionários porque de acordo com as características da ação, os criminosos haviam recebido a orientação de alguém que conhecia a rotina dos moradores e o funcionamento do prédio. Os porteiros foram acusados de passar informações para os bandidos como, por exemplo, dados sobre a estrutura do edifício, e a melhor forma de entrar no prédio.
Uma moradora que não se identificou e um outro que apareceu na reportagem se disseram surpresos, assustados e decepcionados. Disseram que a decepção foi maior, porque os acusados não eram funcionários novos, mas já trabalhavam há algum tempo no prédio. Em entrevista, o secretário de segurança, Rodney Miranda, levantou a hipótese de os bandidos terem visitado o prédio, três dias antes do crime, mas como teriam sido alertados pelo porteiro, de que a maioria dos moradores já estava recolhida, adiaram a ação.
No sábado, dia 03/05, um dia depois da exibição da reportagem, o delegado responsável pelas investigações, André Cunha, disse em entrevista a rádio CBN Vitória que havia liberado os dois porteiros e pedido desculpas aos acusados.
Só o jornal A Gazeta repercutiu. Fez isso, no dia seguinte (04/05):
Assalto: delegado pede desculpas a porteiros de prédio
O delegado André Cunha, da Divisão de Repressão a Crimes Contra o Patrimônio pediu desculpas, em nome da polícia, aos porteiros detidos durante o cumprimento de um mandado que resultou na prisão de pessoas acusadas de participar da quadrilha que invadiu e saqueou cinco apartamentos do Edifício Bahia Blanca, na Praia do Canto, em Vitória, na quarta-feira.“Quando eles (os porteiros) foram liberados, conversei com cada um dos dois, dizendo os motivos da prisão. Como delegado, não vi qualquer problema em dizer que a polícia pedia desculpas, já que os elementos eram muito fortes no momento, mas que a liberdade era questão de Justiça”, revelou o delegado, à Rádio CBN Vitória.
A polícia pediu desculpas, mas e a imprensa? Certamente a vida dos porteiros nunca mais será a mesma.





É impressionante o descaso da imprensa em relação ao que noticia. Acabam com a vida das pessoas e depois dão uma notinha no jornal. Lamentável.