O amigo, jornalista e leitor deste blog, Flávio Gonçalves, deixa mais uma sugestão. Ele faz uma comparação que, a princípio, pode parecer descabida. Vamos ao caso: reportagem 1 – nesse domingo, o Gazeta On Line publicou a seguinte reportagem:
Policial Rodoviário Federal é detido por desacato à autoridade durante blitz do “Madrugada Viva” em Vitória
Uma abordagem de rotina feita por policiais militares durante o “Madrugada Viva”, realizado na Praia de Camburi, em Vitória, terminou em confusão. A esposa de um policial rodoviário federal foi parada pelos militares e se negou a realizar o teste do bafômetro a pedido do marido. Os PMs e o agente da PRF acabaram se desentendendo e houve tumulto no meio da rua.
A confusão aconteceu por volta das 2h30 na Avenida Dante Michelini. A enfermeira N.C.A.M., de 29 anos, voltava de um casamento com o marido, o agente rodoviário A.F.L., de 31 anos, quando foi parada pela blitz do Madrugada Viva.
Segundo o Boletim de Ocorrência da PM, a enfermeira apresentava sinais visíveis de embriaguez, como olhos vermelhos. A polícia pediu que ela descesse do carro e fizesse o teste do bafômetro, mas o agente e marido dela a impediu. [...]
Já nesta segunda-feira o mesmo portal de notícias publicou a seguinte matéria, também da editoria de Polícia:
Amigos de universitário morto ajudarão no retrato falado do comparsa de Danielzinho
Daniel da Silva, o Danielzinho Os dois amigos que estavam com o universitário Wilson Augusto Costa Salles, 19 anos, assassinado na madrugada de sábado após um seqüestro-relâmpago no bairro Santa Luzia, em Vitória, irão depor no início da tarde desta segunda-feira na Divisão de Repressão a Crimes Contra o Patrimônio (DRCCP), que passa a investigar o crime. Eles irão tentar identificar o comparsa do assaltante Daniel da Silva, o Danielzinho, 18 anos, acusado de disparar o tiro que matou o estudante.
Segundo o delegado Danilo Bahiense, se o outro suspeito não tiver ficha na divisão, os amigos de Wilson poderão ajudar na confecção do retrato-falado do outro acusado. O chefe da Patrimonial informou ainda que Danielzinho praticou há alguns meses um assalto com reféns no Morro da Cesan, em Santa Lúcia, Vitória, onde cristãos costumam fazer retiro espiritual. Em certa oportunidade, ele e os comparsas levaram as vítimas para o Morro da Gurigica, que fica na região. [...]
A pergunta do Flávio é a seguinte: “são situações diferentes. Mas mesmo assim: uma hora usa inicial, na outra, estampa-se a foto. Afinal, qual é o padrão?”
Situações mesmo muito diferentes. A primeira reportagem dá conta de uma confusão causada por abuso de autoridade e mostra como tem gente que ainda tem certeza que, apesar de todos serem iguais perante à lei, uns são mais iguais que outros. A segunda matéria fala de um assassinato covarde durante um seqüestro-relâmpago. O rapaz atirou, pelas costas, quando sentiu que a vítima esboçava uma reação.
Reparem que mesmo tendo sido identificado pelo colega do estudante assassinado, no corpo do texto, Daniel da Silva, aparece como acusado de ter disparado o tiro que matou o rapaz. Por outro lado, a reportagem atribuiu a atividade de assaltante como profissão de Daniel. E a foto do acusado foi amplamente divulgada, talvez para que a população ajude a polícia a encontrá-lo.
Já no texto da matéria do policial rodoviário e esposa, suspeitos de dirigirem embriagados e arrumarem confusão com a polícia militar - que cumpria o seu papel fiscalizador - aparecem apenas as iniciais dos envolvidos.
Existe a possibilidade de a própria polícia militar ter omitido o nome, e divulgado para a imprensa, apenas as iniciais dos acusados. Também temos que levar em consideração que, muito provavelmente não havia nenhum repórter fotográfico, de plantão, às 2h30, cobrindo o Madrugada Viva para fazer a foto e colocar no jornal. O casal foi logo liberado, e, por isso, também não dava para ir à delegacia fazer o retrato do PRF e mulher. A foto de Daniel, que foi divulgada, faz parte do arquivo da Polícia.
Mas mesmo assim há de se concordar que falta um padrão claro no Gazeta On Line. É bem verdade que os padrões podem e devem ser sempre discutidos e questionados. Há muitos argumentos contra ou a favor da ampla divulgação da imagem de suspeitos. Mas, mesmo assim, há de haver um padrão, para não parecer que o critério é simplesmente econômico. Algo como: “Quando é negro e pobre, a gente divulga a vontade, põe para quebrar; só que quando for classe média, a gente redobra os cuidados, já que ninguém têm certeza de nada, não dá para sair acusando, a polícia já liberou…”
Quem foi pego em flagrante tem o direito a ter a identidade preservada? Todos, ou só os de classe média?




