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Perguntar não ofende

Até antes de ontem o governo do Estado jurava que o sistema aquaviário era economicamente inviável e por isso descartava as lanchas como alternativa de transporte na Grande Vitória. Por que será que mudaram de idéia? Por que nenhum repórter perguntou isso?

foto: gazetaonline

Já disse aqui neste blog, em um post de dezembro do ano passado, que não é preciso ser muito rigoroso com relação à prática jornalística para só noticiar o que já tem confirmação. Mesmo nas manchetes, é fundamental ser claro, e, principalmente, ser preciso na informação.

Na última sexta-feira, o jornal A Gazeta publicou uma reportagem com a seguinte manchete:

Preço do pão e do macarrão cairá até 5% em agosto (sem link, já que o novo gazetaonline dificultou bastante a busca pelas edições anteriores)

Será? A notícia é a isenção do ICMS para esses produtos. Ninguém pode afirmar que a queda no imposto será repassada ao consumidor. Eu tenho minhas dúvidas e o jornalista não precisa arriscar. Seria só colocar uma palavrinha, antes de cairá: pode ou deve, por exemplo.

Aí vai o endereço do podcast da turma de Laboratório de Radiojornalismo que foi orientada por mim. Além de um radiojornal (produzido em tempo real), há uma série de reportagens interessantes.

 

Está lá página 11, do jornal A Gazeta, desta sexta-feira, em anúncio publicitário de página inteira. O novo portal Gazeta On Line, que está no ar desde ontem, quer priorizar a participação do usuário. Aliás, a intenção de seguir os princípios da Web 2.0 é tão marcante no discurso sobre a nova organização do portal, que está bem claro até no slogan: “gazetaonline somos todos nós.”

Por isso, não poderia faltar um canal de jornalismo colaborativo, também chamado de jornalismo do cidadão. Então, o portal criou o Cidadão Repórter  em que os internautas podem enviar textos, fotos e vídeos. Também existe um espaço para comunidades e fóruns.

Mas não bastam apenas vontade, ou campanhas publicitárias para trabalhar de maneira satisfatória a interação com os usuários. O ponto chave aí é criar esses mecanismos, esses espaços visando a estimular o leitor para que ele saia do estado de coadjuvante no processo comunicacional. Se tudo der certo, essas mudanças inauguram um novo ambiente, em que a audiência se transforma em usuários. Aqui, o leitor tem a oportunidade de estabelecer, por si próprio, as ligações, desbravar os caminhos como bem entender. As mensagens devem estar ligadas a outras mensagens, comentários, notas explicativas, interpretações, wikis, fóruns, blogues que comentam e resignificam as mensagens e redes sociais onde se debate determinado tema.

Isto significa que, o papel tradicional do emissor, a postura de quem escreve também deve se transformar. Nesta nova forma de organizar as mensagens, o receptor ganha sim um papel mais ativo, mas também quem escreve e conhece bem a essa nova possibilidade de organização discursiva deve procurar abrir, ao invés de fechar trilhas.

Tomara que a equipe da rede Gazeta consiga entender e trabalhar bem com essas potencialidades.

Por enquanto, a partir de uma primeira e rápida olhada, faço algumas observações quanto as ferramentas disponíveis no novo portal: a) os fóruns só podem ser criados pela equipe do portal. A participação do usuário se resume a responder as questões que são levantadas por eles e não é possível propor uma pergunta.

b) Os blogs são apenas sete. Seis são mantidos por jornalistas da própria rede e o sétimo é de um consultor em tecnologia que é colunista de A Gazeta e também tem um quadro fixo, semanal, na TV Gazeta. Ou seja, todos já são funcionários do grupo. A dúvida que fica é se esses espaços não ficarão restritos a publicar as sobras do jornal impresso. O que não couber no jornal impresso, desova-se no blog. Isso seria subutilizar uma ferramenta muito rica. Para usar o mesmo estilo de metáfora que usei em sala de aula, seria mais ou menos como comprar uma Honda Biz para usar no trânsito de São Paulo, mas nunca andar no corredor formado entre os carros. Outro ponto importante: os blogs que já estão no ar NÃO têm espaço para se comentar os posts. ISSO MESMO!! São chamados de blogs, mas ninguém consegue deixar comentários.

**Atualização: deve ter sido alguma dificuldade técnica… Neste domingo (06/07), os blogs disponibilizaram espaços para os comentários.

Faltando apenas dez dias para o final do semestre letivo, aí vão os links para os blogs da serelepe e peralta turma de Teorias e Práticas Jornalísticas para Meios Eletrônicos: On Line, que foi orientada por mim.

Aghata e Maurício – http://grito2008.blogspot.com
Aline – www.literaturaboteco.blogspot.com
Ana Paula – www.desbravandomomentos.blogspot.com
Anna Karla – www.catablogs.wordpress.com
Brunella e Gabriela – http://ofantasticomundodebeb.blogspot.com/
Cíntia – http://www.quebrascabecas.blogspot.com/
Clerisson – http://demencia.wordpress.com
Daniel – www.acompanhamentomusical.blogspot.com
Eliane e Tielly – www.culturejazz.blogspot.com
Fabiana e Thais – www.emvenus.blogspot.com
Kássia – http://identidadeviva.blogspot.com/
Leonardo Lopes – www.labradio.wordpress.com
Leonardo Quarto – www.olharincomum.wordpress.com
Luiz Alberto – www.ultimopasse.blogspot.com
Marcos Alves – cutucadelas.blogspot.com
Natasha e Marlon – www.docacos.blogspot.com
Rafael e Janaína – www.todatela.blogspot.com
Rafaella – www.amlatina.blogspot.com
Shamylle e Roberta – www.asdesaventurasdenicky.blogspot.com
Simone e Marcela – www.acenadocinema.blogspot.com
Sylvia – http://meu-profile.blogspot.com

No semestre que vem tem mais, já que continuo com a disciplina. Na espera de que o trabalho iniciado com os blogs tenha sequência, um grande abraço a todos.

crédito: infopod.com.br

O amigo, jornalista e leitor deste blog, Flávio Gonçalves, deixa mais uma sugestão. Ele faz uma comparação que, a princípio, pode parecer descabida. Vamos ao caso: reportagem 1 – nesse domingo, o Gazeta On Line publicou a seguinte reportagem:

Policial Rodoviário Federal é detido por desacato à autoridade durante blitz do “Madrugada Viva” em Vitória

Uma abordagem de rotina feita por policiais militares durante o “Madrugada Viva”, realizado na Praia de Camburi, em Vitória, terminou em confusão. A esposa de um policial rodoviário federal foi parada pelos militares e se negou a realizar o teste do bafômetro a pedido do marido. Os PMs e o agente da PRF acabaram se desentendendo e houve tumulto no meio da rua.

A confusão aconteceu por volta das 2h30 na Avenida Dante Michelini. A enfermeira N.C.A.M., de 29 anos, voltava de um casamento com o marido, o agente rodoviário A.F.L., de 31 anos, quando foi parada pela blitz do Madrugada Viva.

Segundo o Boletim de Ocorrência da PM, a enfermeira apresentava sinais visíveis de embriaguez, como olhos vermelhos. A polícia pediu que ela descesse do carro e fizesse o teste do bafômetro, mas o agente e marido dela a impediu. [...]

Já nesta segunda-feira o mesmo portal de notícias publicou a seguinte matéria, também da editoria de Polícia:

Amigos de universitário morto ajudarão no retrato falado do comparsa de Danielzinho

Daniel da Silva, o Danielzinho

Os dois amigos que estavam com o universitário Wilson Augusto Costa Salles, 19 anos, assassinado na madrugada de sábado após um seqüestro-relâmpago no bairro Santa Luzia, em Vitória, irão depor no início da tarde desta segunda-feira na Divisão de Repressão a Crimes Contra o Patrimônio (DRCCP), que passa a investigar o crime. Eles irão tentar identificar o comparsa do assaltante Daniel da Silva, o Danielzinho, 18 anos, acusado de disparar o tiro que matou o estudante.

Segundo o delegado Danilo Bahiense, se o outro suspeito não tiver ficha na divisão, os amigos de Wilson poderão ajudar na confecção do retrato-falado do outro acusado. O chefe da Patrimonial informou ainda que Danielzinho praticou há alguns meses um assalto com reféns no Morro da Cesan, em Santa Lúcia, Vitória, onde cristãos costumam fazer retiro espiritual. Em certa oportunidade, ele e os comparsas levaram as vítimas para o Morro da Gurigica, que fica na região. [...]

A pergunta do Flávio é a seguinte: “são situações diferentes. Mas mesmo assim: uma hora usa inicial, na outra, estampa-se a foto. Afinal, qual é o padrão?”

Situações mesmo muito diferentes. A primeira reportagem dá conta de uma confusão causada por abuso de autoridade e mostra como tem gente que ainda tem certeza que, apesar de todos serem iguais perante à lei, uns são mais iguais que outros. A segunda matéria fala de um assassinato covarde durante um seqüestro-relâmpago. O rapaz atirou, pelas costas, quando sentiu que a vítima esboçava uma reação.

Reparem que mesmo tendo sido identificado pelo colega do estudante assassinado, no corpo do texto, Daniel da Silva, aparece como acusado de ter disparado o tiro que matou o rapaz. Por outro lado, a reportagem atribuiu a atividade de assaltante como profissão de Daniel. E a foto do acusado foi amplamente divulgada, talvez para que a população ajude a polícia a encontrá-lo.

Já no texto da matéria do policial rodoviário e esposa, suspeitos de dirigirem embriagados e arrumarem confusão com a polícia militar - que cumpria o seu papel fiscalizador - aparecem apenas as iniciais dos envolvidos.

Existe a possibilidade de a própria polícia militar ter omitido o nome, e divulgado para a imprensa, apenas as iniciais dos acusados. Também temos que levar em consideração que, muito provavelmente não havia nenhum repórter fotográfico, de plantão, às 2h30, cobrindo o Madrugada Viva para fazer a foto e colocar no jornal. O casal foi logo liberado, e, por isso, também não dava para ir à delegacia fazer o retrato do PRF e mulher. A foto de Daniel, que foi divulgada, faz parte do arquivo da Polícia.

Mas mesmo assim há de se concordar que falta um padrão claro no Gazeta On Line. É bem verdade que os padrões podem e devem ser sempre discutidos e questionados. Há muitos argumentos contra ou a favor da ampla divulgação da imagem de suspeitos. Mas, mesmo assim, há de haver um padrão, para não parecer que o critério é simplesmente econômico. Algo como: “Quando é negro e pobre, a gente divulga a vontade, põe para quebrar; só que quando for classe média, a gente redobra os cuidados, já que ninguém têm certeza de nada, não dá para sair acusando, a polícia já liberou…”

Quem foi pego em flagrante tem o direito a ter a identidade preservada? Todos, ou só os de classe média?

Para não esquecer

Tem assunto que entra na agenda midiática de uma hora para outra. Assim, sem mais nem menos, passa a ser onipresente. O telespectador pode mudar de canal, o ouvinte muda de estação, o leitor pode até comprar o jornal concorrente, não adianta: é impossível fugir do assunto. Dessa forma, não tem jeito. A agenda da mídia passa a ser a agenda pública. O que está nos meios de comunicação é assunto em todas as esquinas, permeia as discussões, pauta a conversa cotidiana.

Depois o assunto morre, ninguém mais ouve falar. Aquilo que era noticiado como muitíssimo importante – por isso mesmo com tanto destaque – cai no esquecimento. Até a imprensa, que só falava e pensava no tal assunto, o esquece. O que se dirá então da memória da população, se ela nunca é consultada na hora de definir esses temas? Mais fácil ainda de esquecer.

Esse funcionamento é generalizado. Não é privilégio de nehum meio ou empresa específica. Também não é restrito a uma região. Aqui no Espírito Santo não é diferente.

Este post é uma pequena contribuição para relembrar alguns assuntos que são muito importantes, mas que já foram esquecidos pela cobertura da nossa imprensa.

1) O que aconteceu com a ação do Ministério Público Estadual que proibia a cobrança dos estacionamentos privados na primera hora de uso, e que obrigava a cobrança fracionada?

2) Que fim levou a ameaça do governo do Estado de retomar (encampar) a concessão da Rodosol?

As sugestões para incremento dessa lista são muito bem-vindas.

Na última sexta-feira, (20/06), O ESTV 2ª edição exibiu a seguinte reportagem:

Trata-se de um VT sobre o recém-inaugurado terminal do sistema Transcol, em Jacaraípe. A matéria mostra que não se passaram nem dois meses da inauguração [que contou com festa e shows musicais], mas mesmo assim andaimes emergenciais tiveram que ser colocados no local para servirem de escora do teto! Isso mesmo! O terminal novinho em folha apresentou rachaduras por toda a parte estrutural e, para evitar que o teto caia sobre as cabeças dos usuários, o governo do Estado colocou uma gambiarra para segurar o telhado.

A reportagem foi ao local, fez as imagens, ouviu os passageiros, funcionários e a Secretaria de Obras do Estado. Tudo com muito equilíbrio e cautela, sem alarmismos ou exageros.

Alguém aí se lembra como foi a cobertura da TV Gazeta e do jornal A Gazeta, da inauguração da Praça do Papa, pela Prefeitura de Vitória?

Um outro exemplo em que o tratamento da TV foi muito diferente deste aí acima está neste outro post. Me parece que há uma regularidade de vozes…

Aproveitando o mote do post anterior, trago uma leitura que pode nos ajudar a compreender melhor o tipo de jornalismo que vem sendo realizado com mais frequência na imprensa capixaba. No artigo Informação e conhecimento no jornalismo, Orlando Tambosi faz uma reflexão muito interessante sobre o jornalismo declaratório:

“Por um lado, quanto mais declaratório for o jornalismo, quanto mais depender exclusivamente de fontes, mais difícil será sustentar que seja uma forma de conhecimento autônoma. [...] Em resumo, o jornalismo declaratório produz informações, mas é difícil saber se são verdadeiras, por mais ‘checadas’ que sejam e por mais críveis e honestas que sejam as fontes. Pode por isso induzir a crenças falsas. Nesse sentido, não produz conhecimento.”
(TAMBOSI, Orlando. Informação e conhecimento no jornalismo. In: Estudos em jornalismo e mídia – v.II, nº 2, 2º semestre de 2005. Revista Acadêmica Semestral – Programa de Pós-Graduação em Jornalismo e Mídia da Universidade Federal de Santa Catarina)

Logo, esse tipo de jornalismo produz suas consequências…

Esta eu não entendi. O jornal A Gazeta publicou, na editoria de Dia-a-dia, neste sábado (14/06), a seguinte reportagem:

Empresas entram na Justiça para impedir greve de ônibus

Diante de mais uma ameaça de paralisação dos rodoviários, as empresas de ônibus da Grande Vitória entraram na Justiça do Trabalho na tentativa de impedir qualquer novo movimento de greve da categoria. Em maio, eles pararam por três dias, prejudicando quase 600 mil usuários do transporte público.

Os rodoviários já disseram que podem paralisar as atividades novamente na próxima semana. Eles não concordam com a ampliação do intervalo de almoço, de 1 hora para 2 horas, como pretendem os empresários. Alegam que, com isso, teriam que ficar mais tempo à disposição das empresas.

Segundo os rodoviários, no último acórdão ficou combinado que seria mantido o que já está determinado na convenção coletiva. Dessa forma, o intervalo do almoço seria de uma hora, com extensão máxima de 1h20.

“Demos entrada em um pedido de embargo no Tribunal Regional do Trabalho para que ele seja revisto e esclarecido”, afirmou o advogado do Sindirodoviários, Aides Bertoldo.

Em relação à possibilidade de uma paralisação na terça-feira, o presidente do Sindirodoviários, Edson Bastos, disse, em entrevista ao Gazeta On Line, que os trabalhadores estão “irritados” e não descartou a hipótese de interrupção das atividades. “Greve é só em último caso. Mas acho que não será preciso porque esse problema é fácil de resolver”, ponderou.

As entidades que representam as empresas de ônibus informaram, por nota, que só tomaram conhecimento da ameaça de uma nova greve pela imprensa e que, até ontem, não haviam sido procurados por nenhum representante do Sindirodoviários para discutir o assunto.

O mote da reportagem é a movimentação das empresas de transporte de passageiros na tentativa de impedir, na justiça, uma nova greve dos rodoviários. Isso está claro desde o lide. Mas foi somente no último parágrafo, que o lado das empresas é ouvido ‘oficialmente’ pela matéria. As entidades representantes disseram ter tomado conhecimento das reivindicações dos motoristas e cobradores, somente por meio da imprensa!

Na hora de ouvir o outro lado é preciso verificar a razoabilidade das declarações. Caso contrário o princípio do contraditório perde sua força e corre-se o risco de limitar a atividade ao jornalismo declaratório. Ou seja, ouve-se um lado, depois o outro, e pronto: dever cumprido, como se o teor das declarações não devesse ser objeto de atenção dos jornalistas. Aí surgem casos como a reportagem acima. Parece que a nota enviada pelas entidades representantes das empresas não condiz bem com a realidade. A consequência é que o leitor fica completamente perdido; a mercê da eficiência das assessorias de comunicação das emrpesas e da inoperância do jornalismo em cumprir minimamente o seu papel.

Será que as empresas entraram mesmo na justiça? Os empresários tomariam essa medida somente por causa de rumores surgidos na imprensa?  A quem interessa a estratégia de apresentar os rodoviários como inconsequentes que, antes mesmo de apresentar as reivindicações aos patrões, já ameaçam entrar em greve?

Será que a declaração das empresas deveria ter sido publicada dessa forma? Eu acho que não. Jornalista tem que estar informado o suficiente para poder questionar. O jornalismo não pode se limitar a ser porta voz de dois lados, já que ele também é responsável pelas consequências de tudo aquilo que publica.

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